A ANTIGUIDADE

O conhecimento a respeito do assunto esterilização foi obtido ao longo dos tempos, estando intimamente relacionado ao desenvolvimento da microbiologia, tornando-se praticamente impossível o estudo do primeiro sem nos referirmos ao ultimo. Como se atribui o surgimento da microbiologia à tentativa de solucionar o “problema” da existência da vida e da morte, o conhecimento e o desenvolvimento da esterilização acompanhou passo a passo a solução para este problema da antiguidade.

Desde o início dos nossos tempos o homem parece ter praticado, de alguma forma, processos de purificação e desinfecção, sendo este último o precursor da esterilização. A utilização de anticépticos tais como o piche ou alcatrão, resinas e aromáticos foram largamente empregados pelos egípcios no embalsamento de corpos mesmo antes da existência de uma linguagem escrita. Do trabalho de Heródoto (484 – 424 a.c), há indicações de que os egípcios eram familiarizados com os valores anticépticos do ressecamento resultante da utilização de certos produtos químicos como o sal comum. A fumaça originada da queima de produtos químicos também era utilizada pelos mais antigos com o propósito de desodorizar e desinfetar.

A purificação de ambientes e a destruição de materiais nocivos e infecciosos através do fogo parece ter se originado também entre os egípcios. A cremação de corpos de animais e de pessoas, especialmente nos casos de guerras, sempre foi pregado pelos mais antigos como forma de descarte, assim como uma maneira de se eliminar odores desagradáveis.

Moisés foi o primeiro a prescrever um sistema de purificação através do fogo e, dos livros Levítico e Deuteronômio, podemos perceber que o mesmo foi responsável pelo desenvolvimento de um processo de purificação de ambientes infectados. Os severos mandamentos dados por Moisés (cerca de 1450 a.c.) a respeito do descarte de dejetos, sanitização, tratamento e prevenção da lepra, o toque em objetos sujos e a absorção de alimentos não limpos formam a base do primeiro código sanitário estabelecido pelos antigos Hebreus. Digno de nota também, é a proibição da tatuagem (Lev. 19:28) com o intuito de prevenir a transmissão de hepatite através da agulha contaminada e o relacionamento das moscas à transmissão de doenças. Tomando-se como partida as leis estabelecidas por Moisés, vários sistemas de purificação foram adotados.

A história registra que os pensadores da antiguidade nunca duvidaram de que, sob condições favoráveis, a vida, tanto animal como vegetal, parecia surgir de forma espontânea. Certos filósofos gregos da antiguidade defendiam a teoria de que animais eram formados da umidade. Empédocles (450 A.C.), um defensor da fumigação como meio de combater epidemias, atribuía à geração espontânea a existência de todos os seres vivos que habitavam a terra. Aristóteles (384 D.C.) pregava que “animais são formados algumas vezes em solos putrefatos, algumas vezes em plantas e algumas vezes em fluidos de outros animais. O mesmo Aristóteles formulou o seguinte princípio: “ toda substância seca que se torna úmida ou todo corpo úmido que se torna seco produz criaturas vivas, provando que isto é para nutri-los”. Durante esta época, é digno de nota que Hipócrates (460-370 D.C.), o maior de todos os médicos, responsável pela dissociação da filosofia da medicina, reconheceu a importância da água fervendo para a limpeza de feridas, das mãos e unhas e o uso de compressas nas feridas.

O período de 900 a 1500 D.C. é tido como uma era de decadência e estagnação. A imundície, a pestilência e a praga arrasaram toda a Europa. Tentativas foram feitas para combater a pestilência em hospitais, lazaretos e casas infectadas através de soluções de limpeza, aeração, vapores de palhas queimadas, de enxofre, antimônio e arsênico. Este período testemunhou o surgimento de enfermarias monásticas sob a influência da igreja.

Fracatório, o primeiro epidemiologista do mundo, publicou seu famoso trabalho “De Contagione“, o qual versava sobre a pestilência aérea. Ele presumia a existência de imperceptíveis “sementes de doença que se multiplicavam rapidamente”. Em adição a isso, ele declarou que doenças eram disseminadas de três formas: contato direto, manuseio de objetos manipulados por doentes e pela transmissão à distância.

A DESCOBERTA DA BACTÉRIA

A existência da bactéria foi considerada possível por muitas pessoas antes mesmo que esta fosse descoberta. No entanto, a prova de sua existência teve que esperar o desenvolvimento e a construção de um equipamento adequado à observação e ao estudo das formas de vida microbianas, o microscópio. Neste ponto, precisamos dar crédito a Antonj van Leeuwenhoek pela perfeição das lentes de curta distância focal por ele desenvolvidas. Utilizando estas lentes, foi possível, pela primeira vez, a visualização das formas maiores de bactérias. Em 1863 ele observou e descreveu uma grande variedade de formas microbianas em vários fluidos corporais, descargas intestinais de animais, água e cerveja com alto grau de precisão. Leeuwenhoek também fez importantes contribuições à anatomia microscópica sendo tido, por certas autoridades, como real descobridor dos corpúsculos sanguíneos. As observações de Leeuwenhoek e o desenvolvimento do microscópio foram responsáveis pela fundação da bacteriologia e reabriu a questão concernente à fermentação e doença.

A DOUTRINA DA GERAÇÃO ESPONTÂNEA

Seguindo a descoberta da bactéria, a questão antiga relacionada à geração espontânea de coisas vivas tornou-se assunto de discussão. Alguns poucos indivíduos combatiam a teoria, mas a crença geral era de que as bactérias se originavam espontaneamente e esta crença permaneceu até que Louis Pasteur finalmente pos fim à questão através de experiências convincentes realizadas em 1862. Um dos primeiros oponentes à teoria foi L. Spallanzani, que em 1765 demonstrou que o ato de ferver uma infusão de matéria decomposta por 2 minutos, não era suficiente para destruir todos os micróbios; mas quando a infusão era colocada em um frasco hermeticamente fechado e fervido por uma hora, não ocorria nenhuma geração de micróbios ou fermentação, enquanto o frasco permanecesse selado. Apesar de Spallanzani ter provado, para sua própria satisfação, que o poder vegetativo não existe em matéria inanimada, ainda era mantido por alguns, notadamente John Needham (1713– 781) e George Buffon (1707–1788), que o processo de fervura tinha enfraquecido ou destruído a “força Vegetativa”, prevenindo assim que a geração espontânea tivesse lugar.

O ataque à geração espontânea continuou em 1836 com Franz Schulze, que falhou em encontrar evidências de organismos vivos em infusões fervidas nas quais o ar tinha sido admitido após sua passagem através do ácido sulfúrico. Experimentos similares foram conduzidos por Theodor Schwann em 1837. Excetuando-se o fato de o ar admitido ter sido aquecido a temperaturas elevadas, os resultados foram os mesmos, ou seja, nenhum crescimento bacteriano ou fermentação foi observado. Neste ponto é interessante observarmos que Schvann considerava que o processo de fermentação poderia ser freado ou inibido por um agente capaz de destruir fungos, tais como o calor e o Arsenato de Potássio. Devido a esta crença, Schwann é considerado por várias autoridades, o fundador da ciência de desinfecção.

Em 1854, H. Schroeder e T. Von Dusch fizeram contribuições adicionais a favor das forças de oposição à teoria da geração espontânea. Estes pesquisadores empregaram uma nova técnica de admissão de ar no interior de frascos de fervura de infusões, através da filtração do ar por meio de uma camada de tecido de lã. Isto foi feito para combater os argumentos contra possíveis alterações nas propriedades do ar que poderiam ocorrer nos experimentos de Schulze e Schvann, gerando condições desfavoráveis ao suporte à vida. Apesar de os resultados terem mostrado que soluções estéreis foram obtidas por este método, foi provado, mais tarde, que o mesmo procedimento não obteve sucesso na prevenção da fermentação do leite, carne ou ovo, a menos que estes materiais fossem submetidos à fervura prolongada a 100oC, aquecido em um banho de óleo a 130oC ou aquecido no “digestor de Papin”.

No ano de 1859 o problema da geração espontânea permanecia ainda em estado de incerteza. A primeira estaca seria a prova decisiva da presença de micróbios na atmosfera. A controvérsia foi agravada pelo aparecimento de uma publicação intitulada “Heterogenie”, escrita por F. A. Pouchet. Aparentemente, o autor teria repetido os experimentos de Schulze e Scwann e seus resultados foram diametralmente opostos aos achados anteriores. Pouchet também ridicularizou a idéia de que organismos estivessem presentes na atmosfera, sendo este um ponto de vista conflitante com a corrente razoável de Pasteur de que os microorganismos responsáveis pela fermentação viessem de fora do material fermentado.

LOUIS PASTEUR

A fim de conhecermos as contribuições de Pasteur no desenvolvimento da arte da Esterilização, é necessário voltarmos ao ano de 1860. Neste ano Pasteur completou com brilhantismo suas pesquisas sobre a causa microbiana da fermentação e estava pronto para iniciar seus estudos sobre o problema da geração espontânea. Pasteur iniciou seu ataque à teoria da geração espontânea com uma investigação microscópica do ar atmosférico, e com a ajuda dos dispositivos mais engenhosos da época, demonstrou que o ar, em diferentes localidades, diferia em seu conteúdo de microorganismos. Com a disciplina que lhe era peculiar, Pasteur comprovou experiências antigas realizadas por Schwann, Schroeder e Von Dusch, mostrando que após passar o ar através de um filtro de algodão, este continha partículas organizadas similares em aparência a esporos e, se estas articulas fossem introduzidas em fluidos estéreis e nutritivos, era induzida a fermentação. Pasteur mostrou finalmente que a fermentação em infusões fervidas poderia ser prevenida, se o gargalo do frasco fosse prolongado e unido a um tubo em forma de U. Desta forma os organismos e as partículas de poeira presentes no ar poderiam entrar pela extremidade aberta do tubo em U, mas devido a ausência de correntes de ar os microorganismos seriam incapazes de subir pela outra extremidade do tubo para alcançar o conteúdo do frasco. Com este tipo de frasco ele também mostrou que a fermentação poderia ser induzida imediatamente, agitando o aparato de forma a permitir o contato entre a infusão e os organismos depositados do tubo em U. Este experimento foi o maior golpe contra a doutrina da geração espontânea.

A importância desta fase do trabalho de Pasteur pode ser sumarizada no fato de, onde os investigadores anteriores desenvolviam experimentos visando demonstrar a ausência da fermentação em infusões estéreis em contato com o ar livre de germes, Pasteur não apenas fez isso, como também provou que os microorganismos presentes no ar eram, de forma inquestionável, responsáveis pelas mudanças que ocorriam em suas soluções estéreis.

O grande resultado prático desta fase do trabalho de Pasteur não é apenas o fato dele ter posto um fim à controvérsia a respeito da geração espontânea, mas também o fato de suas observações sobre a poluição atmosférica pelas bactérias, terem pavimentado o caminho para a cirurgia anti-séptica de Lister, que revolucionou a prática cirúrgica pelo mundo.

Um dos últimos defensores da doutrina da geração espontânea foi o médico inglês Bastian. Em 1876, Bastian atacou o trabalho anterior de Pasteur, o qual estabelecia que a urina, esterilizada através da fervura, não era suscetível à fermentação e nem mostrava evidências de crescimento bacteriano após incubação. Bastian afirmava que esta esterilidade era obtida apenas sob certas condições e, se a urina fosse tornada alcalina no início, seria observado, frequentemente, algum crescimento bacteriano. Como resultado disso, ficou demonstrado que líquidos ácidos poderiam ser tornados estéreis através da fervura, uma vez que certos organismos não destruídos pelo processo de fervura, eram incapazes de se desenvolverem em meios ácidos. Por outro lado, se o meio fosse tornado levemente alcalino, as bactérias sobreviventes cresceriam e se multiplicariam livremente.

Esta controvérsia com Bastian finalmente levou ao estabelecimento do fato de certos micróbios existentes na natureza serem capazes de resistir a prolongados períodos de fervura a 100oC. Anteriormente acostumado a ferver seus líquidos a uma temperatura de 100oC, Pasteur viu-se forçado a fervê-las agora a temperaturas de 108oC a 120oC, visando assegurar a esterilidade. O costume de levar os líquidos à temperatura de 120oC a fim de garantir a esterilidade data deste conflito com Bastian.

Visando alcançar as exigências de métodos mais efetivos e eficazes de esterilização, a temperaturas mais elevadas do que a de ebulição, Pasteur foi levado a desenvolver novos dispositivos e equipamentos. Durante este período (1876-1880) de avanços nas técnicas bacteriológicas, Charles Chamberland, pupilo e colaborador de Pasteur, foi responsável por desenvolver o primeiro esterilizador à pressão de vapor, ou autoclave, com o qual era possível alcançar temperaturas iguais ou superiores a 120oC.

O equipamento desenvolvido por Chamberland era equipado com uma válvula de segurança e um dispositivo na tampa, que poderia ser aberto para aliviar a pressão gerada pelo aquecimento. O equipamento continha ainda uma pequena quantidade de água e os materiais a serem esterilizados ficavam suspensos acima da água través de prateleiras. Este equipamento pode ser considerado o precursor de nossos esterilizadores modernos.

As pesquisas de Pasteur não se restringiam à fermentação ou à teoria da geração espontânea. Mais importante foi o estabelecimento, e a verificação em laboratório, da verdadeira teoria das doenças causadas por germes. Talvez seja suficiente dizer que a literatura não registra contribuição maior para esterilização do que o pronunciamento feito por Pasteur em 30 de abril de 1878, frente a academia de medicina:

“Se eu tivesse a honra de ser um cirurgião, tão convencido como eu estou dos perigos causados pelos germes de micróbios espalhados pela superfície de cada objeto, particularmente nos hospitais, eu não penas utilizaria instrumentos absolutamente limpos, como limparia minhas mãos com o máximo cuidado e colocaria as mesmas sobre uma chama, e utilizaria apenas esponjas, bandagens e tecidos os quais tivessem sido previamente aquecidos à 130oC – 150oC; utilizaria apenas água que tivesse sido aquecida à temperatura de 110oC-120oC. Tudo isso é facilmente obtido na prática, e, desta forma, ainda teria medo dos germes suspensos na atmosfera ao redor da cama do paciente ; mas observações nos mostram todos os dias que o número desses germes é quase insignificante se comparado àqueles espalhados na superfície de objetos, ou na água mais límpida.”


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